Afetos Revisitados

Faz hoje um ano que parti para uma das viagens da minha vida. À janela do avião, vejo o meu sonho ganhar forma depois de horas de mar sem fim. Um pedaço de terra vulcânica dá as boas vindas a quem chega com o seu areal mais dourado: a praia de São Pedro. Uma jura de luz e de vida que antecede a terra desolada, seca e gretada que rasga todo o seu corpo, até ao coração pulsante do Mindelo. Cidade de sorrisos abertos, conversas em cada esquina e um borbulhar de vida que se ouve desde da alvorada até ao último trinado de uma morna tardia.

Ponto Seguro

No teatro, ensinaram-me a fixar o olhar num ponto atrás da plateia, para dar a ideia que olho para todos ao mesmo tempo. Concentrada, altiva e presente. No pilates disseram-me que, para me poder equilibrar, devia escolher um ponto para fixar o meu olhar. Estável, segura e harmoniosa. Na vida, disseram-me para ter objetivos definidos para usar como Norte para as minhas ações. Determinada, focada e alinhada.

Entardecer antes da hora

Os últimos raios de sol quentes lembram os dias de verão que julgavas infinitos.

Como quando eras pequeno e fixavas os teus dedos dos pés na ponta da prancha. Diziam-te que tinhas de saltar mas tu não conseguias. Milímetro a milímetro, esticavas os dedos para te convenceres a avançar. As pessoas desapareciam à tua volta e os gritos confundiam-se com o chapinhar dos outros miúdos que se atiravam nos voos mais improváveis.

Big City Love III

Cada hora em que não te escrevo é uma vitória. A cada meu piscar de olhos e uma nova hora no relógio suspiro de alívio por não te ter escrito. A cada hora eterna que se divide em conjuntos de 15 minutos quando estou ocupada e de 5 em 5 quando o maldito ecrã do telemóvel fica especado a olhar para mim.

Ao suceder de horas que compõem estes dias nasce uma nova batalha na guerra comigo mesma. Blindo o meu coração, corro as persianas do meu cérebro, deixo-os desorientados num espaço onde não se vêem, não se tocam, não se ouvem.