Um vida impune

23, 25, 27.

Os prédios parecem-me todos iguais nesta periferia de betão. Talvez a Ana tenha razão, começar a andar com um mapa seria de bom uso, porque a minha memória de taxista lisboeta de nada me serve aqui nas ruas da Reboleira. Um sítio de que, até hoje, só tinha referências vagas e que me lembra histórias tristes. Este domingo chuvoso também não ajuda. Não há nada mais deprimente do que esta chuva miudinha que cai sem parar, a borrifar-nos.

Afetos Revisitados

Faz hoje um ano que parti para uma das viagens da minha vida. À janela do avião, vejo o meu sonho ganhar forma depois de horas de mar sem fim. Um pedaço de terra vulcânica dá as boas vindas a quem chega com o seu areal mais dourado: a praia de São Pedro. Uma jura de luz e de vida que antecede a terra desolada, seca e gretada que rasga todo o seu corpo, até ao coração pulsante do Mindelo. Cidade de sorrisos abertos, conversas em cada esquina e um borbulhar de vida que se ouve desde da alvorada até ao último trinado de uma morna tardia.

Ponto Seguro

No teatro, ensinaram-me a fixar o olhar num ponto atrás da plateia, para dar a ideia que olho para todos ao mesmo tempo. Concentrada, altiva e presente. No pilates disseram-me que, para me poder equilibrar, devia escolher um ponto para fixar o meu olhar. Estável, segura e harmoniosa. Na vida, disseram-me para ter objetivos definidos para usar como Norte para as minhas ações. Determinada, focada e alinhada.

Entardecer antes da hora

Os últimos raios de sol quentes lembram os dias de verão que julgavas infinitos.

Como quando eras pequeno e fixavas os teus dedos dos pés na ponta da prancha. Diziam-te que tinhas de saltar mas tu não conseguias. Milímetro a milímetro, esticavas os dedos para te convenceres a avançar. As pessoas desapareciam à tua volta e os gritos confundiam-se com o chapinhar dos outros miúdos que se atiravam nos voos mais improváveis.