Entardecer antes da hora

Os últimos raios de sol quentes lembram os dias de verão que julgavas infinitos.

Como quando eras pequeno e fixavas os teus dedos dos pés na ponta da prancha. Diziam-te que tinhas de saltar mas tu não conseguias. Milímetro a milímetro, esticavas os dedos para te convenceres a avançar. As pessoas desapareciam à tua volta e os gritos confundiam-se com o chapinhar dos outros miúdos que se atiravam nos voos mais improváveis.

Big City Love III

Cada hora em que não te escrevo é uma vitória. A cada meu piscar de olhos e uma nova hora no relógio suspiro de alívio por não te ter escrito. A cada hora eterna que se divide em conjuntos de 15 minutos quando estou ocupada e de 5 em 5 quando o maldito ecrã do telemóvel fica especado a olhar para mim.

Ao suceder de horas que compõem estes dias nasce uma nova batalha na guerra comigo mesma. Blindo o meu coração, corro as persianas do meu cérebro, deixo-os desorientados num espaço onde não se vêem, não se tocam, não se ouvem.

Occhi neri di tempesta

Occhi neri di tempesta. Guardandoli vedo le nuvole che si avvicinano e creano una barriera scura, densa e fredda. L’elettricità pericolosa nel tuo cuore pulsante si scatena ad ogni tuono, in sintonia con il tuo respiro.

Guardo le acque calme di un lago, stagnanti e scure che mi ipnotizzano. Riflettono le nuvole che si fanno sempre più spesse, sempre più nere, sempre più calde. Le rughe del tuo sguardo muovono le acque come se un foglio fosse caduto lentamente, sfiorando appena la superficie.

Longe da vista, longe do coração

Fechei as janelas, corri as persianas e apaguei a luz. Tudo na esperança de não te ver. Semicerrei os olhos só para ter a certeza que funcionava, mas não. Continuavas a cruzar o teu olhar com o meu. E eu, perdido, continuava a sorrir-te como se não estivesse mais ninguém na sala, mais ninguém no mundo, mais ninguém no universo inteiro.

Depois decidi fechar os olhos quando passavas. Decidi que ia ser forte, contar até 5 enquanto alisava a barba. Longe da vista, longe do coração.

Os loucos riem com a tempestade

Trovões que ressoam cá dentro, a electricidade que te trespassa com pele de galinha, o braço de ferro com o vento que não te deixa caminhar. Abres os braços e deixas que te sustenha, é um pouco como voar. Lembraste das gaivotas que pairam fixas no mesmo ponto.

O céu escuro e o teu olhar negro iluminado a cada relâmpago. Mesmo em segundos tão curtos percebo o que me querem dizer e que tu calas.Gargalhadas à chuva, dançar na água que escorre pelas colinas desta cidade. O teu rosto salpicado de lama que te multiplica os sinais que são só teus.O mundo fechado entre quatro paredes com o canto do vento. As pessoas fecham as portadas a essa força incontrolável, qual canto de sereia que as atraí para os abismos do mundo.