O taxista que gostava de ópera

No silêncio de uma manhã fria de Inverno, entre o barulho de um carro a subir a rua e o som opaco das manhãs, ouvia-se por entre um vidro entreaberto uma ópera em alto e bom som.

Estico o braço e apanho esse táxi.

Depois de dar as indicações o taxista pergunta “Não a incomoda o som aí atrás, pois não?” com esta dupla negativa não havia outra resposta a dar… “Não não, esteja à vontade”, ao que o taxista replica minimamente esperançoso “A menina gosta de ópera?”. Em clara posição de poder enquanto pessoa ao volante, com a fama da irritabilidade de taxista e a peculiaridade de ouvir ópera, a minha resposta tinha de ser bem medida.

Hesitante disse “Não particularmente… Mas não tem problema.”

Neutra, equilibrada, boa.

“O problema é que em Portugal ninguém gosta de ópera. Há uns que dizem que gostam mas não gostam” – Ora aí concordamos. Toda uma classe que vive para o estatuto e se dedica à imagem.

O senhor, na casa dos seus 40 e muitos, com pinta e “sotaque” de típico Lisboeta, diz o que já orgulhosamente se adivinhava. “Eu sou de Alfama, ‘tá a ver? Sabe como é que eu comecei a gostar de ópera?”

Agora tem toda a minha atenção, instalou-se aquela cumplicidade que só há entre alfacinhas típicos, com o sangue mouro que nos corre nas veias.

O senhor contou-nos, com as suas palavras encurtadas à Lisboeta, como era fã de Pink Floyd e de todas essas grandes bandas da altura (e de sempre!) e de como em sua casa só se ouvia fado. E de como, um dia, um senhor “de fora” se mudou para o andar de cima e ouvia ópera o dia todo, com o som bem alto. Ao que o pai replicava que aquilo não era música, era uma mulher a berrar.

“Maria Callas” diz com um sorriso irónico.

“Uma mulher a berrar…” ri.

Disse que um dia, com 36 anos, ao fazer zapping parou num canal que passava ópera. Fez-se o clique. Aumentou o volume e ali ficou, extasiado. Ouviu ópera, ouviu-a na sua plenitude e sentiu a sua beleza. Foi uma imersão.

Cheguei ao meu destino e despedimo-nos entre várias frases de quem ainda não tinha acabado a conversa.

“Ouça Puccini! Todas as mulheres gostam de Puccini!”

 

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