Transbordar de saudade

“Desde sempre, a municipalidade de Lisboa colocou assentos públicos (…) dos quais se avista a linha do mar. Muitas são as pessoas que neles se sentam. Em silêncio, olham ao longe. Que estão a fazer? Estão a praticar a Saudade. Tentem imitá-las. É claro que é uma via difícil de percorrer, os efeitos não são imediatos, por vezes é preciso saber esperar mesmo muitos anos. Mas a morte, é sabido, também disso se faz.”

Os Voláteis de Fra Angelico Antonio Tabucchi

Todos as noites olho para o tecto alto por cima de mim. A mancha quase imperceptível alarga-se a cada insónia, expande-se e desenha formas que a minha mente cansada não se atreve a decifrar.

Deve ser assim que se sente a luz intermitente do hall de entrada do prédio, que pisca ininterruptamente com aquele barulho de mosquito contra a luz. Vazia, bloqueada, incapaz.

Os meus pensamentos ecoam como os passos nas escadas do prédio. Os saltos que marcam o ritmo do dia ao embaterem no mármore, ao acariciarem cada degrau, ao serem transparentes. Ao não serem.

Hoje a mancha é tão saliente que me pergunto se não estará uma torneira aberta. Um lava-loiças esquecido pelo telefone que toca, pelas notícias na televisão. Fixo-o tão firmemente que sinto a primeira gota que me escorre pelo rosto. Salgada, quente.

É de certeza uma banheira esquecida. Com sais do mar lá dentro e vagas de sétimas ondas.

Sinto outra gota que me escorre pelo rosto.

Descubro que se pode transbordar de saudade.

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