Os loucos riem com a tempestade

Trovões que ressoam cá dentro, a electricidade que te trespassa com pele de galinha, o braço de ferro com o vento que não te deixa caminhar. Abres os braços e deixas que te sustenha, é um pouco como voar. Lembraste das gaivotas que pairam fixas no mesmo ponto.

O céu escuro e o teu olhar negro iluminado a cada relâmpago. Mesmo em segundos tão curtos percebo o que me querem dizer e que tu calas.Gargalhadas à chuva, dançar na água que escorre pelas colinas desta cidade. O teu rosto salpicado de lama que te multiplica os sinais que são só teus.O mundo fechado entre quatro paredes com o canto do vento. As pessoas fecham as portadas a essa força incontrolável, qual canto de sereia que as atraí para os abismos do mundo.

 

E tu ris.

Na luz dos relâmpagos vejo o teu sorriso desafiante, prepotente, premonição de uma gargalhada profunda que só ouço na minha cabeça. No escuro penso em mim, não te vejo e não existes. Depois, a cada trovão salto em mim mesma, salto até ao precipício que está entre nós e sustenho a respiração num equilíbrio precário para não cair.

Dizem que os loucos riem com a tempestade. Penso nisso quando ouço a tua gargalhada a cada trovão, ouço-a sempre mais perto. Ouço-a enquanto sai dos meus lábios e vejo-a reflectida no espelho desta chuva sem clemência.