No sítio certo à hora errada

Encontraram-se no sítio errado à hora errada. Cruzaram-se sem se verem, falaram sem se aperceberem, conheceram-se sem notar.

Corriam paralelos e em sentidos opostos, no sítio errado à hora errada. Eu via-os todos os dias, sem se olharem, sem se escutarem, com o olhar no finito que era mais um dia, mais uma semana e mais um mês.

Perguntava-me sempre como é que aquela energia se tocava sem se sentir. Como? Como é que os dias se encurtavam, as noites se alongavam e essas estradas continuavam distantes, paralelas e invisíveis.

Olhei do alto do meu lugar privilegiado. Olhei do fundo, sentindo todas as dores, as alegrias e a indiferença. Seguia-os todos os dias, no sítio que sabia ser certo à hora que soube ser errada.

Um dia viram-se com olhos de ver. Viram-se sem muros, sem corpo, sem preconceitos. Vi-os enquanto aquela energia confluía e crescia à sua volta, como os caminhos paralelos se tornaram nós cegos, labirínticos, confusos. Como o horizonte se expandiu até ao infinito, até perder de vista, até a imaginação não o alcançar. No sítio certo à hora errada.

Vi-os presos nesses laços que os puxavam para os abismos como num pesadelo. Vi-os emergir batalha após batalha, eram guerreiros, sentiam-se fortes, mas eram sempre vencidos. Vencidos por um mundo contra o qual não souberam lutar, derrotados por angústias, bloqueados pelo medo. Soldados assustados em plena batalha campal, numa cena de filme sem som.

Daqui, vi o que eles não conseguiram ver. Os nós que se desenlaçavam e o horizonte com o céu a tocar o mar. Vi o sítio certo e fechei os olhos para imaginar a hora certa.

Abri os olhos e vi-os lutar com tanta força que romperam os laços. Afastaram-se com os fios que pendiam das suas vidas. Os pontos sem nós, uma linha sem fim. Voltaram às estradas distantes, paralelas e invisíveis.

O que eles não vêem daquela perspectiva é o círculo em que caminham. O mundo pequeno e redondo que os acolhe. A estrada que lhes parece paralela e que se une ao andarem em sentidos opostos, cada um com os seus fios que pendem incompletos. O que eles não vêem dali é o sítio certo que vai chegar à hora certa.

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