Impressões na areia

O tempo goteja sedento de outro, nesta terra árida, vulcânica e quente que olha para os céus com lábios gretados. O tempo, com a sua ironia, passa como água numa torneira defeituosa.

O vento é aquele que trouxeram as caravelas, com cheiro a maresia e um silêncio ensurdecedor. Se não fosse pelo movimento que provoca nas nuvens, empurrando-as para outras latitudes, pensarias que a imobilidade da ilha se tivesse estendido ao universo.

Os corações são de vulcão. Fervilham mesmo quando adormecidos, explodem sem controlo e podem destruir com uma força avassaladora. As emoções dilatam-se com as altas temperaturas: tudo dói mais, marca mais, extasia demais.

O ritmo é o embalo de uma morna. Com trinados que te lembram a tua saudade e um calor de colo de mãe. É um afago na cabeça, um caldinho quente, um pôr-do-sol comovente.

Unidos pelo mar que nos separa, olhamos na mesma direção. Esperamos quem não voltou, vivemos entre despedidas, partimos com uma pedra no peito e sonhos no olhar.

“Às vezes as pessoas estão perto, mas o coração delas está longe.”

Disseram-me entre desabafos de desconhecidos. Lembrei-me do assobio do vento que sentes nos ouvidos quando o coração está longe e a pessoa perto. Da distância maior que a do oceano, do frio de sair da água ao fim do dia, da solidão imbatível de nunca estar sozinho.

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