Afetos Revisitados

Faz hoje um ano que parti para uma das viagens da minha vida. À janela do avião, vejo o meu sonho ganhar forma depois de horas de mar sem fim. Um pedaço de terra vulcânica dá as boas vindas a quem chega com o seu areal mais dourado: a praia de São Pedro. Uma jura de luz e de vida que antecede a terra desolada, seca e gretada que rasga todo o seu corpo, até ao coração pulsante do Mindelo. Cidade de sorrisos abertos, conversas em cada esquina e um borbulhar de vida que se ouve desde da alvorada até ao último trinado de uma morna tardia.

Volto ao Mindelo todos os dias desde então. Mas, nos últimos tempos, dou por mim a visitar esta ilha de onde trouxe tanto de mim, num presente que o destino me deu antes deste meses de isolamento físico e emocional, que parecem impossíveis quando penso nos afetos de Cabo Verde durante a minha estadia de três meses. Terra de beijos e abraços, com os seus corações de vulcão que vivem desmesuradamente cada momento e que nos dizem para desaprender tudo o que a vida até hoje nos ensinou. Fui realizar um dos pontos da minha bucket list – fazer voluntariado no estrangeiro – e nunca cheguei a riscar esta linha, porque descobri que é algo que vai sempre fazer parte do meu querer.

Revisito São Vicente – Soncent – e volto a casa. Terra que me acolheu como nenhuma outra até hoje, nestes anos fora do meu país. Mindelo recebeu-me como uma velha amiga: mostrou-me as suas ruas, revelou-me os seus segredos e guiou-me na minha jornada até eu encontrar o que não sabia precisar. Fê-lo através das minhas deambulações pela cidade; das minhas conversas com as pessoas; das personagens da Laginha que eu observava no areal, enquanto lia sobre as suas vidas nos livros de Germano Almeida. 

Sonho-a acordada e sinto o calor da sua terra seca, o vento que me gritava aos ouvidos e o sol que castiga em cada caminhada sem sombra. Lembro-me do que é ser diferente (um exercício que desejava que todos pudéssemos fazer uma vez na vida) e de ser aceite com todas as minhas características e excentricidades. Ou acham que não é estranho, ser uma estrangeira que vai para uma associação pregar defesa animal para as escolas sem portas; que insiste em explicar a importância do feminismo os seus amigos que nas suas vidas só viajaram de Santo Antão até ali; e que vive uns meses só do seu dinheiro extra, conceito quase desconhecido no Barlavento? Nunca nada importou. As diferenças despertam curiosidade e aceitação, porque cada um tem as suas peculiaridades nessa família alargada feita de todos aqueles que conhecemos.

Ao visitar São Vicente lembro-me do sol que nascia tão cedo e tão rápido, da cidade preguiçosa que adiava sempre os planos só mais uns minutos, do tempo elástico entre conversas com os velhotes da praça, dos madrugadores da Laginha, e dos companheiros de pequeno almoço, na cozinha da nossa casa que era o nosso ponto de encontro.

Percorro o Mindelo desde a sua praia de água azul-paraíso sob o olhar atento do Monte Cara. Atravesso-o até às ruas estreitas que levam ao mercado da Praça Estrela, com as suas tabernas e jogatanas de Ouri em banquinhos à porta de casa. Percorro-a a pé, sem pressa, até às suas encostas impossíveis de Monte Sossego de onde se vê o mundo como o ele é: a terra árida semeada com as suas casinhas de cimento, as casas de latão lá no cimo, as grande e coloniais lá em baixo, o lixo que queima ao longe. E eu, ali, de alma vazia e com uma tristeza tão profunda que pela primeira vez nem encontrei palavras, as minhas lágrimas só souberam dizer “é que tenho tanta pena”. 

Fui resgatada de cada tristeza pela compaixão de almas que têm a certeza que os nossos momentos de alegria pelas pequenas coisas vencem sempre. Assim é. Somos aqueles instantes em que nos engasgámos a rir a comer Farinha de Kamoka, quando quisemos ser polvo no meio daquele abraço de 10 crianças ao mesmo tempo, quando que tropeçamos nas trelas dos cães enquanto íamos a “chatanar” em pleno deserto.

Hoje, volto a São Vicente com o mesmo bater no peito, mas desta vez não é medo e curiosidade, é a emoção de voltar a encontrar quem alargou esta saudade que carrego, cruz e motor desta alma lusófona. Penso no areal de São Pedro que, de alma pesada, vê partir os seus para o outro lado do Oceano à procura de outra sorte, e que brilha a cada regresso, acolhendo os aviões no seu regaço. Penso no seu sorriso acolhedor e sei que não são promessas vãs mas as boas-vindas a casa. Sinto aquele calor de cortar a respiração quando saio do avião e só vejo terra à minha volta, mas sei onde é o meu Norte. 

Corro pela Laginha com os seus cães que pedem carinho e adormecem a meu lado à sombra do meu livro; brindo com o ponche de tamarindo no quiosque da praça; volto a ir buscar o almoço à dona Nídia, que me arranja sempre peixe fresco; volto à livraria da ilha para pedir conselhos sobre as histórias de Cabo Verde; volto ao carinho das pessoas incríveis da associação durante os nossos turnos no canil, nas escolas e no escritório, entre confissões e sonhos; acabo o dia embalada pelas Mornas da Xia, que só canta depois de um cigarro e um grogue, e sorri de deleite com nossa felicidade.

Volto ao Mindelo e encontro-o como era, inalterado na sua vida de ilha longe da costa. Mesmo que os rumos daqueles que conheci mudem, mesmo que tenhamos crescido à velocidade acelerada de Cabo Verde, sei que nos vamos rir como a criança dentro de nós que ali aprendi a deixar ir brincar descalça na rua.

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