Sobrevoar o tempo

O voo ia cheio nesse final de dia. O horizonte da cabine revelava cabeças em todos os assentos. Num dos últimos, um casal de meia idade cede, educadamente, passagem a uma rapariga que viajava com um livro na mão.

Essa fila, como tantas outras, albergava a sua história única. Mas esta, era uma daquelas que muda a rotação do mundo, que acelera as voltas que dá sobre o seu eixo, e que ameaça virá-lo ao contrário.

Transbordar de saudade

“Desde sempre, a municipalidade de Lisboa colocou assentos públicos (…) dos quais se avista a linha do mar. Muitas são as pessoas que neles se sentam. Em silêncio, olham ao longe. Que estão a fazer? Estão a praticar a Saudade. Tentem imitá-las. É claro que é uma via difícil de percorrer, os efeitos não são imediatos, por vezes é preciso saber esperar mesmo muitos anos. Mas a morte, é sabido, também disso se faz.”

Os Voláteis de Fra Angelico Antonio Tabucchi

Todos as noites olho para o tecto alto por cima de mim. A mancha quase imperceptível alarga-se a cada insónia, expande-se e desenha formas que a minha mente cansada não se atreve a decifrar.

Cabine Telefónica

Lisboa, 05:47 da manhã.

Um homem fecha-se numa cabine telefónica. Do bolso do fato gasto tira umas moedas ainda em escudos. Tilintam ao cair na ranhura e a linha telefónica parte depois de um silêncio inicial.

A mala que pousou no chão da cabine faz-nos pensar que vai a caminho do escritório. A mão que treme com o cigarro entre os dedos diz-nos que é só o fim desta noite.

Duelo

Pára de olhar assim para mim.

Com esse sorriso malandro de quem tem gosto pela batalha.

Espada em riste dás os primeiros passos com ligeireza. Espadachim exímio na arte deste jogo de forças. Dás golpes certeiros, constantes, pungentes.

Sempre com esse sorriso na cara.