Longe da vista, longe do coração

Fechei as janelas, corri as persianas e apaguei a luz. Tudo na esperança de não te ver. Semicerrei os olhos só para ter a certeza que funcionava, mas não. Continuavas a cruzar o teu olhar com o meu. E eu, perdido, continuava a sorrir-te como se não estivesse mais ninguém na sala, mais ninguém no mundo, mais ninguém no universo inteiro.

Depois decidi fechar os olhos quando passavas. Decidi que ia ser forte, contar até 5 enquanto alisava a barba. Longe da vista, longe do coração.

Os loucos riem com a tempestade

Trovões que ressoam cá dentro, a electricidade que te trespassa com pele de galinha, o braço de ferro com o vento que não te deixa caminhar. Abres os braços e deixas que te sustenha, é um pouco como voar. Lembraste das gaivotas que pairam fixas no mesmo ponto.

O céu escuro e o teu olhar negro iluminado a cada relâmpago. Mesmo em segundos tão curtos percebo o que me querem dizer e que tu calas.Gargalhadas à chuva, dançar na água que escorre pelas colinas desta cidade. O teu rosto salpicado de lama que te multiplica os sinais que são só teus.O mundo fechado entre quatro paredes com o canto do vento. As pessoas fecham as portadas a essa força incontrolável, qual canto de sereia que as atraí para os abismos do mundo.

 

Sobrevoar o tempo

O voo ia cheio nesse final de dia. O horizonte da cabine revelava cabeças em todos os assentos. Num dos últimos, um casal de meia idade cede, educadamente, passagem a uma rapariga que viajava com um livro na mão.

Essa fila, como tantas outras, albergava a sua história única. Mas esta, era uma daquelas que muda a rotação do mundo, que acelera as voltas que dá sobre o seu eixo, e que ameaça virá-lo ao contrário.

Transbordar de saudade

“Desde sempre, a municipalidade de Lisboa colocou assentos públicos (…) dos quais se avista a linha do mar. Muitas são as pessoas que neles se sentam. Em silêncio, olham ao longe. Que estão a fazer? Estão a praticar a Saudade. Tentem imitá-las. É claro que é uma via difícil de percorrer, os efeitos não são imediatos, por vezes é preciso saber esperar mesmo muitos anos. Mas a morte, é sabido, também disso se faz.”

Os Voláteis de Fra Angelico Antonio Tabucchi

Todos as noites olho para o tecto alto por cima de mim. A mancha quase imperceptível alarga-se a cada insónia, expande-se e desenha formas que a minha mente cansada não se atreve a decifrar.

Cabine Telefónica

Lisboa, 05:47 da manhã.

Um homem fecha-se numa cabine telefónica. Do bolso do fato gasto tira umas moedas ainda em escudos. Tilintam ao cair na ranhura e a linha telefónica parte depois de um silêncio inicial.

A mala que pousou no chão da cabine faz-nos pensar que vai a caminho do escritório. A mão que treme com o cigarro entre os dedos diz-nos que é só o fim desta noite.

Duelo

Pára de olhar assim para mim.

Com esse sorriso malandro de quem tem gosto pela batalha.

Espada em riste dás os primeiros passos com ligeireza. Espadachim exímio na arte deste jogo de forças. Dás golpes certeiros, constantes, pungentes.

Sempre com esse sorriso na cara.