O silêncio que me gritas

O despertador que se repete de 5 em 5 minutos. O ar condicionado na sua máxima potência. O exaustor que puxa sem parar. O elevador que sobe e desce. As portas que batem. Um estômago que ronca. As unhas que coçam a nuca. As sirenes da ambulância. As buzinas no semáforo verde. O telemóvel que vibra dentro de uma mala. As cadeiras que arrastam. A máquina de café que aquece.

Um turbilhão de ruídos que te prende e enrola como as ondas de Setembro. Braçadas e mais braçadas e continuas no mesmo sítio. Como quando aprendes a andar de bicicleta e não te soltam o selim. Como as tuas primeiras danças em cima dos pés dos teus pais. Como o vento que vem do mar, abres os braços e inclinas-te para a frente, suspenso no ar.

Tic-tac

Tic tac tic tac

Tic-tic-tic-tic-tic

Dum, dum, dum, dum.

Esta contagem do tempo que não pára. Ouves os minutos que giram no teu pulso, os ponteiros da sala que não param, o vizinho que soa a cada hora. Sentes-te como o crocodilo do Peter Pan que onde quer que vá arrasta o peso do tempo consigo.

Big City Love II

Hoje é definitivamente uma daquelas manhãs em que custa sair do meio dos lençóis. Já atirei o edredão para trás duas vezes, arrependi-me e voltei a afundar-me neste remoinho. E ainda aqui estou.

Quando subi as escadas do prédio às 4 da manhã a tentar não fazer barulho senti aquela adrenalina da rebeldia. Não tinha posto na minha bucket list que estas noites são para ser rotina? Quero lá saber que isso tenha sido aos 20, é como o prazo de validade nos iogurtes, são conceitos flexíveis.